sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Um convite para dançar - Peça de teatro


Uma peça de teatro bíblica.




Peça:

Um convite para dançar

Welington José Ferreira

Ato I Início – Festa Inicial

Todos congelados – personagens posicionados no palco – casais que irão dançar.

Musica 01 musica começa a tocar –

Grupo dançando com intenso falatório

Entra a amiga intercessora (Renata) com outra amiga (Camila) procurando a Sarah

Renata: Paulo, você viu a Sarah?

Paulo sem ouvir: O quê?

Renata gritando: A Sarah! To procurando a Sarah!

Paulo sem ouvir: Quem?

Renata desistindo: Deixa pra lá!

Dirigindo-se a outra pessoa, à Silvia,

Camila: Silvia! Você viu a Sarah?

Silvia: O quê?

Camila: A Sarah! Tô procurando a Sarah, faz um tempão!

Silvia: Vi! Tava com o Carlos lá no Ponche!

Renata e Camila passando entre os convidados indo até o balcão, dirigem-se ao Carlos;

Renata: Carlos!

Carlos: Oi Rê! Oi Camila. O que está pegando?

Renata: A Sarah! To atrás dela a um tempão, a Silvia falou que ela tava contigo!

Carlos: Tava com ela até agora mesmo! Tava aqui do meu lado! Eu me virei e ela sumiu...

Mão saindo atrás do balcão...

Camila espantada: SARAH! O que houve? Você caiu? Se machucou?

Sarah meio bêbada: Não...Tá tudo bem..., eu acho...Eu acho que tropecei..quando ia pegar o ponche... Nossa! O mundo ta girando...


Renata aflita: Gente! Me ajuda a segurar a Sarah!

Carlos, amiga e Renata tentando conduzir a Sarah sentam ela num banco na frente da platéia – primeiro plano, os convidados dançam mais para trás e vão saindo pela porta de trás

Sarah: Ta tudo bem... não precisa me segurar não... nossa...tá tudo azul...

Diminui a musica de rock. Pessoal continua dançando. Entra musica romântica.

Ato II O Encontro

Musica 02 super-romantica – entrada do Lucas

Entra o Lucas.

Congelam todos - menos Sarah, que meio embriagada fixa os olhos em Lucas.

Quando Lucas chega próximo a Sarah – Descongelam.

Lucas para Sarah: Tudo bem? O que houve...

Sarah, olhos fixos em Lucas.

Camila: Nossa amiga tomou um porre, de novo...

Lucas: Tudo bem, isso acontece...eu sou médico, deixa eu dar uma olhada pra ver como ela está...

Congelam todos (posição que estiverem)... Musica romântica aumenta de volume – Só se movimentam Lucas e Sarah...Lucas pega o pulso, tenta medir a pulsação.

Sarah: Ta tudo bem... Só passei mal um pouco... Foi só um mal-estar, tenho dormido mal ultimamente... Acho que exagerei na bebida...

Descongelam todos

Renata: Sarah...Você sabe que não pode chegar nem perto de bebida alcoólica...

Sarah: Eu sei... Eu sei... tive aquela crise hepática, fiquei quase um mês no hospital

Congelam todos. Musica romântica aumenta de volume

Lucas fala: Você tem que se cuidar.

Sarah: Eu sei. Obrigado.

Descongelam. Sarah entrega um cartão para Camila.

Lucas: Se ela passar mal, qualquer coisa, estou trabalhando aqui perto e se for possível, eu venho ajudá-la.

Camila concordando com a cabeça: Ok. Obrigado. Valeu.

Lucas: De nada. E sai.

Pausa da musica romântica

Ato III – A menina má

Grupo de violeiros e jovens sentados nos bancos da frente da platéia, ou no chão, fazem introdução (violão) e começam a cantar Venenosa de Rita Lee.

Venenosa

Parece uma rosa
De longe é formosa
É toda recalcada
A alegria alheia incomoda
Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

Entra a badgirl. Olha para o grupo com indignação, o grupo para imediatamente de tocar.

Badgirl para Sarah: Cara! Tu tá mal dimais! Parece que foi cuspida por um jacaré. Poxa, sou tua amiga, falei que era pra você beber um pouco, não pra encher a cara...

Renata: Você ficou maluca, Hera? Você conhece a Sarah a tanto tempo, você sabe que ela não podia chegar perto de bebida!

Badgirl: Você é muito preocupadinha. Deixa a menina viver a vida. Ela vai vomitar um pouco, dormir mal, acordar com uma baita enxaqueca e ta tudo bem.

Renata: Você pode até ser, mas pode ser que a Sarah não acorde mais. Você é muito irresponsável.

Badgirl: Quer saber? Daqui a pouco ela ta legal. E eu já to indo. A noite é uma criança. Fui.

Grupo de violeiros enquanto Hera se vai:

Venenosa

De longe não é feia
Tem voz de uma sereia
Cuidado não lhe toque
Ela é má pode até te dar um choque

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

Enquanto hera vai embora o grupo vai cantando e diminuindo o volume,

Musica 04 Inicia música orquestral.

As meninas conversam em off

Entra o anjo I. Caminha suavemente e se aproxima das meninas que não o enxergam. Toca Camila que olha para trás sem enxergar e continua conversando. Renata então olha fixamente em direção do anjo. Ele olha para ela. Então balança a cabeça e continua conversando com Sarah (cena muda, só com o som da musica ). O anjo então se afasta e se posiciona no canto do palco.

Música 05 de suspense (Inicio da cena)

Renata tenta levantar a Sarah. Sarah se apóia em Carlos e na Camila. Ela se levanta, dá alguns passos, fica zonza, desmaia e cai derrubando ruidosamente (caixas de papelão) objetos na sala.


Renata desesperada: Sarah! Sarah! Olhando para Camila: Camila ajuda aqui!

Camila corre para socorrer.

Camila: Ela está suando frio!

Renata: Ela está gelada.

Carlos: Gente, eu vou sair pra buscar socorro!

Renata: Cadê o celular. Liga para o médico.

Carlos: Tô saindo. (e corre)

Renata: Alô? Alô: Escritório do doutor Lucas? Ele se encontra? Não? É uma emergência! Assim que ele chegar você... pausa... tá... pausa... tá... desligando.

Camila aflita: E então?

Renata desesperançada: Não se encontra...

Camila: E agora, o que a gente faz?

Renata olha para a platéia e intercede: Pai, socorre a Sarah, não permita que ela morra! Pai celestial ajuda-nos!

Anjo próximo à parede se aproxima e estende a mão em direção a platéia.

Musica 07 De Volta para o Futuro – tema-

Imediatamente grupo de paramédicos aparece, empurrando a porta e correndo em direção a Sarah.

(grupo com violões aplaude e assobia)

O anjo olha em direção ao grupo, que se aquieta.

Paramédicos tentam restaurar Sarah. Perguntam o que aconteceu. Renata e Camila tentam explicar. Médico-chefe orienta enfermeiros para deitarem a cabeça sobre travesseiros, deitando-a de lado. Tiram a pulsação e verificam sinais vitais. Um dos enfermeiros grita:

Ela não está respirando...

Renata e Camila ficam extremamente abaladas. Um dos enfermeiros a conduz ao canto do palco. A médica e o outro lutam para reanimar a Sarah. A Médica coloca o respirador artificial na Sarah.

A partir deste momento todos em off. A cena continua com os personagens sem as vozes e simulando câmera lenta. Música crescente para o ATO IV

Ato IV – A batalha

Anjo se posiciona mais na lateral do palco

música 08 orquestral

Entra a Morte lentamente. Caminha até o placo com a foice a mostra, passando a mão pelos presentes.

Morte: Essa noite, como todas as outras, parece ser uma excelente noite para MORRER!!...

Morte caminha em direção a Sarah.

Anjo: Não. Hoje não é uma dessas noites

Morte: E quem é aquele que de mim, discorda? Poderia você mudar a história? Ou se colocar entre mim e as minhas vítimas?

Anjo: Só um mensageiro. A história já foi mudada antes. Você sabe.

Morte: É verdade. Houve exceções. Mas não nesta noite. Nessa noite não haverá exceções.

Anjo desembainhando a espada: Isso nós veremos.

Morte: Já que é assim, já que você quer se estressar ... venha... PASSARINHO....

Correm em direção um do outro e começa a luta espetacular entre a morte e o anjo.

Morte enquanto luta: Não depende de você, passarinho! Depende de um mistério, cujo cheiro eu não sinto aqui nesta noite!

A espada cai das mãos do anjo.

Morte: A luta terminou... passarinho...

Música sinistra. Cena dos para-médicos com vozes, em velocidade normal. Morte vira de costas para eles e caminha em direção a platéia.

Enfermeiro grita: Perdemos ela! Não está reagindo!

Morte levanta a foice ainda de costas. Entra o anjo II correndo. Passa velozmente pela morte e entrega um rolo contendo uma instrução para o anjo I. O anjo I lê a instrução. Então corre, pega a espada, vira para a morte e grita:

Anjo I: Essa noite haverá exceção!

Anjo I vai até Sarah e a toca.

Sarah reage.

Paramédicos gritam: Está reagindo!

Grupo de violôes faz a festa.

Paramédicos saindo com Sarah pela porta de trás do palco.

música 09

Anjo II corre até a frente da Morte, faz uma dança engraçada e sai correndo. Morte indignada sai correndo atrás do anjo II. Morte correndo atrás do anjo II. Grupo de violões dança também coreografando passos de dança parecida com medieval ou country terminando exatamente no acorde final.

ATO V – Cena da fofoca

Grupo de meninas ruidosas entra comentando o que houve. Grupo de violões começa a tocar:

Venenosa


Se coça como louca, rachada tem a boca
Parece uma bruxa, um anjo mau
Detesta todo mundo, não para um segundo
Fazer maldade é seu ideal.

(pausa)

Entra Badgirl: Dirige-se ao grupo. Começa a comentar:

- Gente, que papelão o da Sarah na festa a três dias atrás! Foi horrível! Disseram que retorceu a boca, que botou os bofes pra fora! Não morreu por sorte! Eu sempre aconselhei a ela, sabe que sou amigaça dela, mas, não! Ela não escuta. Nunca me escuta. Soube até que teve parada cardíaca! Morreu! Gente! Como é pode chegar a esse ponto! Se não sabe beber não bebe! Eu jamais teria feito um papelão desses. Falando nisso, vim convidar você todas, minhas amigas, pra um desfile que euzinha, sim a única, glamourosa, chiquérrima (como diz aquele deputado), estarei, qual estrela em noite de festival, desfilando! E ai, vamos nessa!

Sai apressadamente, com o grupo de meninas a seguindo.

Grupo de violões

Venenosa

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

ATO VI

Retorna Sarah pela parte da platéia, acompanhada de Renata, Camila e Carlos. Ela está com uma muleta e caminha com dificuldade. Carlos corre pra frente das meninas e implica:

Carlos: Tá raso! Tá fundo! Tá raso! Tá fundo!

Renata: Para de implicar com ela.

Sarah: Deixa ele, que vou mostrar já já o peso desse negócio aqui (apontando para a muleta)

Camila: O que os médicos disseram?

Renata: Parece que a crise afetou uma parte dos nervos. Sarah terá

que fazer fisioterapia.

Sarah: Nem vem que não tem que eu não vou fazer fisioterapia. Isso é horrível. Você não tem idéia de como esse negócio dói.

Todos chegam no palco

Sarah. Além do mais, vocês sabem que eu não tenho parentes próximos. E nem distantes... Não conheci meus pais, fui criada num orfanato. Não tenho como custear as despesas com fisioterapia.

Não tenho mesmo.

Silencio (5 seg). Sarah abaixa os olhos.

Congelam, até que os anjos se posicionem no palco.

Música 10 de fundo Entra o anjo I pelo meio da platéia, juntamente com o Anjo II.

Renata percebe a diferença no ambiente. Então fala

Renata: Sarah! Não perca nunca as esperanças! Você estar viva já um milagre! Os médicos estarem tão próximos! O Carlos quase atropelou a ambulância na rua. Se eles chegassem minutos depois...

Camila: Eu tenho um número aqui do hospital de fisioterapia estadual, vamos ligar, quem sabe...

Renata: Dá esse telefone aqui, deixa eu ligar.

Renata disca. Toca a campainha.

Camila: Tá esperando alguma visita Sarah?

Sarah: Não.

Grupo de Violões entoa um cantico

Renata desligando o telefone.

Carlos: Deixa que eu atendo. (vai até a porta lateral)

Entra o fisioterapeuta. Ele sorri e cumprimenta a todos e se apresenta:

Fisioterapeuta: Boa Noite.

Os anjos fazem uma reverencia.

Ato VII

O Fisioterapeuta sorri para os anjos discretamente.

Fisioterapeuta: Eu fui enviado pela superintendência do hospital geral para cuidar de uma jovem que sofreu de um trauma nervoso e está com problemas de locomoção.

Camila: Com certeza, você foi enviado ao lugar correto. Acabamos de chegar do hospital trazendo nossa amiga que sofreu um “acidente”, por assim dizer na semana passada...

(Renata brinca de bêbada...Sarah tenta bater nela com a muleta)

Então se afasta para o Fisioterapeuta tenha acesso a Sarah.

Fisioterapeuta se dirigindo a Sarah,: Oi Sarah. Está tudo bem?

Sarah: Fora o fato de eu não poder anadar direito... tá tudo bem. Foi o Hospital que enviou o senhor? Eu queria agradecer... mas eu não possuo nenhum plano de saúde... eu não sei se possuo condições de pagar por algum tipo de tratamento particular...

Fisioterapeuta: Não se preocupe com isso. Não vai ser cobrado nada de ninguém, tem minha garantia. Tudo já está pago. Faz parte de um plano que foi estabelecido já tem bastante tempo, para pessoas que dele necessitem, acho que esse é o seu caso...

Renata: Com certeza! O senhor aceita um café? Quer sentar?

Fisioterapeuta olha fixamente para Renata. Então sorri.

Fisioterapeuta: Não é necessário. Agradeço sua cortesia. OBRIGADO RENATA.

Renata: O senhor conhece meu nome?

Fisioterapeuta: Eu estava lá no hospital. Vi vocês chegarem, mas não pude conversar com vocês naquela hora. Mas participei de toda a história. E também sei o que aconteceu antes. Sei da festa, da bebedeira... Virando-se para o Carlos: Sei que o Carlos quase foi atropelado pela ambulância. E também sei que a Camila esteve presente em tudo que aconteceu.

Carlos: Nossa! Um médico supeeeeerinteressado! Que legal. Muuito legal!!!!

Camila: E quando a Sarah pode começar o tratamento?

Fisioterapeuta: Hoje. Hoje é o melhor dia pra gente começar.

Renata: Doutor, ela também teve uma parada cardíaca. O coração dela pode ter sido afetado?

Fisioterapeuta: Com certeza. Mas, eu também vou tratar do coração dela.

Badgirl chegando repentinamente: Só do dela não, pedaço de bom caminho...

Grupo de violões:

Venenosa

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

O fisioterapeuta olha fixamente para o grupo de violões. Eles se calam e sentam rapidamente.

Badgirl: Nossa! Quem é esse bonitão... Não vão me apresentar não suas egoístas? Deixa que então, eu me apresento... Pedaço de bom caminho, sou Hera, formosa, lua, dançante, esvoaçante, vaidosa e luminosa!!! Uma sensação de mulher, amiga pro que der e vier.

Renata, Camila e Carlos começam a tussir.

Badgirl: Gesticulando: Vocês são umas invejosas e você seu Carlos, tá zuando de mim porque eu nunca te dei bola! E diga-se de passagem...eu nunca vou dar, você nunca iria me merecer... Vocês não sabem dar valor a uma amizade como a minha, radiante... forte...luminosa...

Fisioterapeuta: E mentirosa.

Badgirl congelada.

Grupo de violões faz a festa! (gritam UuaaaaaaaaaH!) Cantam:

Venenosa

Como um cão danado
Seu grito é abafado
É vil, é mentirosa
Deus do céu, como ela é maldosa

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

Badgirl: Como? O quê? Eu não entendi direito... Do que você me chamou? Eumíssima, belíssima, chiquérrima e absolutamente convicta do que faço... Você, seu desaforado, me chamou de quê?

Fisioterapeuta: Mentirosa. Nem você mesmo acredita no que diz. A muito você aprendeu a dissimular. A esconder o que sente. Você se esconde atrás de um personagem.

Grupo de violões dá a introdução de Venenosa, o Fisioterapeuta olha gravemente para eles... que finalizam rapidamente.

Fisioterapeuta: Você disse que a Sarah podia beber bebidas alcoólicas, e incentivou sua amiga a fazer algo que poderia ter prejudicado-lhe seriamente. Essa tem sido sua vida. Sem medir conseqüências. Você perdeu a vergonha de mentir. Você se entregou de tal modo a esse personagem que interpreta, que já não se importa mais. Com nada e com ninguém!

Badgirl: Eu me importo sim! Você não conhece meu coração pra me julgar dessa maneira!

Fisioterapeuta: Hera Esteves Miguelitta Tavares Maciel Ferreira Gonzales. Você tem dois irmãos. A sua irmã mais velha casou tem três meses. Sua mãe, ainda jovem, morreu no dia em que você nasceu. Seu pai é empresário e passa a maior parte do tempo viajando. Você tem enxaquecas nas terças. Tem medo de escuro, de sapos, de grilos, e de ficar sozinha. Guarda uma foto de sua mãe sobre o álbum de recortes do seu quarto. Tem pesadelos, sobre a possibilidade da morte de seu pai. Quando você acorda de noite vai para a cama de seus irmãos e só consegue dormir abraçada com um urso que seus irmãos chamam de encardido, que está quase se desfazendo. Dentro do ursinho você guarda um brinco que ganhou aos 13 anos. Você caiu uma vez da sacada, torceu o tornozelo, bateu a cabeça e ficou três dias em coma. Quando abriu os olhos a primeira coisa que você viu foi uma pomba na janela. Você sonha em fazer medicina veterinária, desde que seu hamster morreu. E é apaixonada pelo Carlos...

Grupo de violões: Óóóóóóóóóóóóhhhh!

Badgirl: Você ficou maluco! Eu apaixonada pelo...

(musica 11 romântica...) Durante o decorrer da musica ela balança negativamente a cabeça, cruza os braços, então se vira e lentamente olha para o Carlos, que também fica olhando para ela.

Fisioterapeuta: Você pede a Deus para que ele proteja seus irmãos todos os dias. Então fica duas horas se maquiando. A cerca de dois anos, conheceu duas meninas perversas, que se divertiam fazendo coisas desagradáveis. Foi quando você começou a mudar. Você tem um sentimento de raiva as vezes quando vê gente que não possui o que você tem, mas ainda assim são mais felizes do que você. E desde semana passada seu coração não está presente quando você ora. Quando, ainda de madrugada você decidiu não se arrepender de nada mais que você fizesse.

(silencio)

Badgirl: Eu... Eu... Retiro o que disse. Você deve ser um mago, ou profeta ou sei lá o quê. Você me assusta. Mas seja como for, seja você quem for...

... você conhece meu coração...

Mas...

eu não sabia que podia fazer tão mal...pra Sarah.

Pra mim ela tava de frescura...

Fisioterapeuta: Também é verdade. Você não imaginava o mal que a bebida causaria a Sarah. Mas, além de mentir para ela, mentiu para suas amigas sobre o que fez.

É tempo de você se arrepender dos seus erros É tempo de recomeçar. Hera.

E recomece se reconciliando com sua amiga.

Musica 12 do Astor Piazzola – Libertango.

Badgirl atônita...bastante indecisa... vai para frente e para trás: Ora faz pose, ora coça a cabeça. Tenta ir embora, o grupo de violões aponta para Sarah. Até a musica diminuir.

Badgirl (Hera): - Ok. Ok! Entendi a mensagem.

Chega perto de Sarah.

Hera: Desculpa. Perdoa, amiga. Eu falo demais. Demais. Por minha culpa você ta aí. Me perdoa. Então abraça a Sarah por um tempo. E sai correndo.

O Fisioterapeuta acena para os anjos, que a acompanham.

O grupo de violões:

Diferente hoje é meu coração

Diferente hoje é meu coração...

Cristo deu-me a paz e o perdão

Diferente hoje é meu coração...

(passa alguém com uma placa enorme APLAUSOS)

Ato VIII

Carlos: Cara! Tu deve ser psicólogo também! Eu nunca vi essa marrenta se desculpar com ninguém! To impressionado.

Fisioterapeuta: Você vai ficar impressionado com muita coisa ainda,

Carlos...

Virando-se para Sarah:

Fisioterapeuta: A gente continua o tratamento amanhã ao entardecer, está bem?

Sarah balança afirmativamente a cabeça.

O Fisioterapeuta se despede e sai.

Camila: Que tratamento? Ele nem tocou na Sarah?

Renata olha para Sarah que está sorrindo.

Renata: Tocou sim. Tocou sim, Camila.

Carlos: Gente! Tá tarde, temos que ir embora.

Os três se despedem e saem.

Entra o narrador.

Narrador. Oi. Sou o narrador, cheguei um pouco tarde para narrar a peça, eu sei, eu sei, é que eu também faço teatro de marionetes e também peça infantil e estava narrando ainda agora “a pequena Sereia” ali no teatro do Leme. Tive que me trocar as pressas pra tirar a fantasia de Sebastião, aquele caranguejo (mostra a mão com uma pata de caranguejo, depois esconde) o engarrafamento tá uma loucura e...ahamm.. Com voz grave:

Narrador: Nas semanas seguintes o Fisioterapeuta sempre volta ao entardecer para cuidar de Sarah. Mas, apesar de sua paciência e carinho, Sarah parece não progredir.

Musica 13 entre dois mundos de Phil Collins

Fisioterapeuta tentando andar com Sarah e as muletas, fazendo exercícios com a sua perna, Sarah reclamando. – a partir daqui simulação de câmera rápida - Os amigos chegam, brincam, falam entre si, falam com o fisioterapeuta e se vão.

Sarah: Isso é difícil demais! Não consigo!

Fisioterapeuta: Consegue sim.

Sarah: Vem pro meu lugar e vê se você consegue!

Fisioterapeuta: Já estive em seu lugar, sei o que é sentir dores.

Sarah: Você quebrou as pernas?

Fisioterapeuta: Quase... Por muito pouco minhas pernas não foram quebradas.

Sarah: Acidente de carro?

Fisioterapeuta: Não. Mas, ainda possuo as cicatrizes. Por hoje, está bem, não?

Sarah: Graças a Deus!

Fisioterapeuta sorri.

Fisioterapeuta: Sarah, estou indo. Mas, já volto.

Efeito especial - Barulho de chuva

Sarah: Com essa chuvarada? Acho melhor você esperar um pouco, se não vai ficar molhado que nem um pinto.

Fisioterapeuta: Então eu vou sentar um pouco aguardando a chuva melhorar.

Sarah bocejando: Eu to toda moída. Deixa eu encostar um pouco ali... bocejando e se reclinando num sofá. --- Quer um café???

Fisioterapeuta: Não. Pode deixar.

Sarah adormecendo. O Fisioterapeuta senta de seu lado.

Anjos I e II chegam e se posicionam

Ato IX

Musica 14 medonha

Entra a morte e outras quatro potestades. Vem com bastões andando sincronizadamente.

Morte: Outra noite, especial como todas as noites, excelente noite para se morrer. E quem temos AQUI ESTA NOITE? Ora, ora... Se não meus dois pardais prediletos. E que temos mais... vejamos... um homem! Tadinho ... se ele tinha pretensões com a menina..., nem começou a namorar...que triste... já vai ficar viúvo...

Morte virando-se para os anjos: Passarinhos? Só estão vocês aqui e esses mortais? Não imaginavam que poderiam me impedir para sempre...Eu esperava encontrar uma multidão de anjos neste lugar. Tanto que vim preparada essa noite. Vejam, comigo meus companheiros.

Aponta para os quatro:

Desesperança.

Medo

Desespero

E é claro, Dor.

Morte: Vocês já devem ter visto seu trabalho por aí. Profissionais de verdade. Essa noite é noite de trevas e de escuridão. E quanto a vocês, passarinhos. Eu hoje abri uma exceção. Essa noite,

até os anjos... morrerão...

Começa a luta entre as quatro potestades e os dois anjos. Cada duas potestades luta com um único anjo.

O fisioterapeuta observa atento, sem se mover

Os dois anjos são vencidos (duração da luta até o final da musica)

As quatro potestades arrastam os anjos e os lançam ao chão.

Morte: Fácil demais. Agora...onde estávamos quando fomos interrompidos? Ah! Conduzir docemente uma doce menina a um doce sono eterno...

Fisioterapeuta coloca a mão sobre a Sarah.

Fisioterapeuta: Não está esquecendo de ninguém?

Morte se espanta: Uh? Mortal? Você pode me ver? Um ser humano que me enxerga? Cada dia eu fico mais espantada com essa existência. E... (fitando-o)...como se isso não bastasse... que estranho...eu não te reconheço!!! E olha que possuo uma grande memória...conheço a todos os que já nasceram ou não puderam nascer...e principalmente a todos os que vão morrer. Muita gente. E por incrível que pareça... não reconheço a você..

Fisioterapeuta: Mas eu conheço a você. E digo que, verdadeiramente, você não irá tocá-la. Nem agora. Nem nunca.

Morte: Risada sinistra (há-há-há-há!) E você, filho de adão, descendente de homem, com que exército pensa em me impedir? Com aquele ali? (aponta para os anjos caídos)

Fisioterapeuta: Não necessito de um exército.

Musica 15 triunfal

(Efeitos especiais - Bom era ter um ventilador gigante nessa hora)

Fisioterapeuta se levanta. As quatro potestades caem. Ele caminha em direção a morte. As quatro potestades são afastadas como se uma ventania as varresse. Os dois anjos se levantam, fazem reverencia e se afastam. Ele se aproxima da morte que começa a tremer, ajoelha-se e deixa cair das mãos a foice.

Morte: Quem é você, filho do homem?

Fisioterapeuta: Alguém que você pensou que tinha vencido certa vez. Alguém , sobre quem, você cantou vitória, por três dias.

Projetando no telão:

Colossensses 1:15

E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.

A morte se levanta, coloca o capuz e em silencio, com seus asseclas, ainda tremendo, vai embora.

O Fisioterapeuta se aproxima de Sarah, beija-lhe o rosto e lhe cobre. Então sai acompanhado dos dois anjos. (até aqui a musica triunfal)

Placa com aplausos

Ato X!

Voltam Carlos, Camila, Renata, pela manhã. Convidando a Sarah para um grande baile.

Renata: Acorda preguiçosa!

Sarah cheia de sono: Que horas são?

Camila: amanheceu criatura!

Carlos interrogando: O que a senhora estava fazendo ontem a noite?

Sarah: O mesmo que tenho feito nas últimas semanas. Fisioterapia.

Renata: Até que horas você fez a fisio?

Sarah: Acho que até umas oito horas da noite e então o médico...

Sarah fica estática...

Sarah: ele tinha ficado aqui, estava chovendo e eu adormeci...

Renata, Carlos, e Camila em uníssono: Sei.

Renata rindo: Quer dizer que ele ficou até tarde aqui...

Sarah: Tava chovendo! Queria que eu expulsasse ele?

Carlos: Hum... Tá rolando um clima...

Sarah para Camila: Camila, me empresta a muleta, faz um favor...

Renata: Crianças, parem com isso. Carlos, para de implicar com a Sarah. Nós estamos aqui pra te CONVOCAR pra um baile que a gente está fazendo em homenagem de quem? De quem?

Camila e Carlos cantando: Da Sarah!

Camila: Vamos Sarah! Vai ser o maior show! A gente vai se divertir, vamos dançar e você descansa um pouco desse tratamento.

Sarah: E como é que vocês pensam que eu vou dançar com essa coisa – aponta para a muleta? Que graça tem eu ir para um baile e ficar sentada?

Carlos: Porque você não convida o fisioterapeuta. Sério! O cara é superlegal, tem trabalhado pra caramba, porque veja só, pra te agüentar, esse cara cara é um santo homem...

Sarah tentando acertar o Carlos com a muleta.

Camila: Vai Sarah! Convida o médico! Taqui o telefone lá do hospital.

Sarah: Não sei não...

Grupo em coro: Liga! Liga! Liga!

Grupo de violões: Liga! Liga! Liga!

Placa com dizeres para a platéia: (Liga! Liga! Liga!)

Sarah olhando para a platéia: Ta bom! Ta bom! Eu ligo.

Placa com aplausos de um lado e depois silencio do outro.

Sarah pega o telefone celular de Camila. Disca para o telefone do hospital. O pessoal atende, mas informa que lá não existe nenhum serviço de fisioterapia particular. Também não enviam médicos para as residências.

Carlos: Fala sério! Então você foi atendida por um fantasma!

Renata: Para com isso Carlos! Sarah? Talvez ele não seja do mesmo hospital. Ou talvez tenha feito isso sem que o hospital tenha recebido os relatórios.

Sarah: Mas, eu não tenho mais como localizá-lo a tempo.

Camila: Não importa. A gente quer você lá. Ele deve ter um modo de saber que vai haver o baile. Sei lá, ele sabia de tanta coisa. Até me assustava de vez em quando.

Carlos, se apronta que a gente te pega as oito.

Sarah acena com a cabeça enquanto o grupo se despede.

Musica 16 triste.

Sarah sozinha. Ela se dirige para a porta lateral e sai.

Ato XI

Musica de Rock – Grupo arrumando em velocidade fantástica a festa. Quando terminam de arrumar, posicionam as cadeiras e chega o grupo para a festa, primeiro as meninas para se assentar na cadeira. Sarah chega por ultimo.

Antepenúltima musica 17 – para a festa

O salão repleto de bolas de festa. A festa começa com um grupo dançando. Sete cadeiras na parede do salão com sete meninas bem vestidas, Sarah sentada no meio. A Festa começa com os rapazes convidando as moças, que começam a dançar. Uma a uma, alternadamente são tiradas para dançar. Menos Sarah, que fica sem graça, sozinha sentada na última cadeira enquanto o grupo dança, mexendo em sua muleta.

sai a musica da festa e entra outra muito linda (semelhante tipo The Book of Love – Peter Gabriel)

Do fundo da platéia caminhando lentamente vem o fisioterapeuta com roupas de gala. As meninas da festa olham todas espantadas, enquanto os casais se afastam. Ele sobe no palco e se dirige para Sarah. Lentamente estende sua mão para ela e lhe convida a dançar.

Placa (platéia de pé)

Grupo de violões pede que o pessoal se levante.

Sarah: Eu não posso dançar de muletas.

Fisioterapeuta: É verdade. Por isso essa noite e pelo restante de sua vida, você terá que dançar sem elas.

Ele pega a muleta e lança longe. Puxa a Sarah do banco que consegue se firmar com os dois pés. Então segura as mãos de Sarah e dança com ela pelo meio dos outros convidados. O Fisioterapeuta roda com ela que começa a rir.

Placa (Aplausos ruidosos)

Ato XII

Musica 20 FINAL Espetacular para o convite. Durante a duração da musica, a explicação da peça, um convite a salvação deve ser realizado enquanto a musica estiver tocando convidar as pessoas para irem a frente e depois orar por elas.

Lista de personagens:

(06) Seis casais para as danças nas festas.

(01) Um narrador

(01) Camila

(01) Renata

(01) Carlos

(01) Lucas

(01) Sarah

(06) Seis moças para a cena da fofoca.

(01) A morte

(04) quatro Potestades

(02) dois anjos

(01) Hera – a badgirl

(01) médico chefe

(02) dois Enfermeiros

(03) três violeiros

(06) Pessoas de apoio para cantar no grupo de violeiros

(01) Fisioterapeuta

(02) Seis casais para a festa final

(01) Menina da Placa

Paralelos com as Escrituras:

Dança final com a Sarah:

Jo 10:10 - O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.

Quando Carlos fica impressionado com o fato do Fisioterapeuta saber tanto sobre Hera:

João 1

47 Jesus viu Natanael vir ter com ele, e disse dele: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.

48 Disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus

respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira.

49 Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel.

50 Jesus respondeu, e disse-lhe: Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? Coisas maiores do que estas verás..

Quando o Fisioterapeuta levanta a Sarah no final

Ato 9:34 - E disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus Cristo te dá saúde; levanta-te e faze a tua cama. E logo se levantou.

Quando as potestades são lançadas no chão:

Colossensses 1:15

E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.

Quando Hera perde perdão a Sarah

Colossensses 2:12

Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade;

Quando o fisioterapeuta diz que a morte jamais levará a Sarah

Jo 8:51 - Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte.

Quando a morte tem sua arma caindo no chão:

1Co 15:55 - Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?

Quando o segundo anjo conversa com o primeiro:

Zac 2:3 - E eis que saiu o anjo que falava comigo, e outro anjo lhe saiu ao encontro.

Quando o primeiro anjo recebe um decreto das mãos do segundo,

Apo 10:8 - E a voz que eu do céu tinha ouvido tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.

Welington José Ferreira


Fantásticas memórias do Exílio




E foram histórias tristes
Dentre fábulas fantásticas
E desceram montes apáticos
Vestidos de couraças gélidas
E criam naquelas bandeiras
Na verdade, estandartes levantados
Por jovens de mãos fortes
Acostumados com o gemido das batalhas
E foram torrões acesos
Brilhando com suas espadas
Por entre as vielas Curdas
Por entre os pastos queimados
Sangrando homens treinados
Gritavam cavalos baios
Brindavam espadas raras
Cresciam pavores plenos
Marechais e comandantes
Seus soldados agora errantes
Entre as pilhas dos caídos
Entre os gritos dos vencidos
Avante! Cavalos baios
Por esses morros infames
Lutar na guerra sem nome
Até não poder correr mais livremente
Até que só sobre a fome.
Caiam desfraldadas bandeiras
Caiam pendões entre mãos trêmulas
Até que se aquietem os vales
Até que se aquietem os vales

Todos os personagens deste livro são fictícios.

Qualquer semelhança com alguém real é mera coincidência...

Inclusive o autor...

E o livro...

Talvez...

Quem saberá ao certo?

Você que o lê agora...

Sobre a Guerra

Houve um tempo além do tempo, quando as estrelas recém nascidas ainda quentes emanavam mais luz que olhos humanos seriam capazes de enxergar, num lugar impensado, diante de paisagens deslumbrantes, rodeadas de espectros e cores hoje inexistentes, onde anéis de asteróides feitos de cristais de ametista e nuvens de gás feitas de azul cintilante mescladas de faixas prateadas entrecortavam os espaços celestiais.

Houve um tempo, além do tempo que um anjo translúcido e reluzente, em movimentos espirais de significados desconhecidos, correu em direção a um segundo e tenebroso anjo, com ordem de não deixá-lo passar. Numa época de desatino e loucura na qual alucinadamente, num delírio espectral, anjos escolheram as trevas como casa e a escuridão como envoltório. E nesse hiato entre o que foi e o que o universo veio a se tornar, entre a eternidade passada e o passado da eternidade, um destes mensageiros de trevas foi interceptado por outro mensageiro, que recusando as trevas confirmou para sua morada a própria luz.

Quando se viu perseguido, o maligno, numa reviravolta espantosa, se atirou sobre o primeiro. O que vinha em perseguição esperou a iminente colisão.

Os dois oponentes diametralmente se chocaram ao norte da imensidão. Lá onde hoje, se estende o vazio. O que não tinha nome, cuja origem era a luz, permaneceu impassível diante do cataclisma. Na onda e no turbilhão que se seguiram, energias fantásticas percorrendo distancias inconcebíveis desabaram sobre duas estrelas gigantescas que se rasgaram. E uma galáxia inteira se colapsou.

Incontinente, ele não se moveu.

Lançado longe por sua própria tentativa, consciente entretanto do arroubo de seu terrível poder, novamente atacou, o maligno. Na segunda feita, foi tão violento o embate, que o primeiro não pode se segurar no tecido do invisível, sendo arremessado impetuosamente ao centro de uma terceira estrela, atravessando-a como fosse uma espada afiada.

O de trevas avançou violentamente e então rasgou a estrela ferida indo ao encontro do primeiro anjo.

Noutra torrente de interminável escuridão, se lançou para destruir o formidável ser.

Dobraram-se mais uma vez as estruturas das dimensões e expostas foram as vísceras das constelações, vindo outra galáxia a contorcer, gemer e perecer.

Turbilhões de gás se espalharam no fatídico dia em que nasceram as nebulosas.

Do vento feito de energia, o tecido da existência foi arrastado formando-se assim os buracos negros.

Incandescia a fronte do formidável...

... Quando pela primeira vez...

Aquele que era como a luz...

... revidou.

Welington Language Institute

Meu amor,

Olha só

Hoje o sol

Não apareceu

Numa apresentação da

Twenty Century Welington

É o fim

Da aventura humana,

Na terra

Coprodução da fantástica

Welington Corporation

Meu planeta adeus,

Fugiremos nós dois na arca de Noé

patrocínio

By Welington

Productions

Olha meu amor,

O final da odisséia terrestre

Sou Adão e você será

Prólogo

11 de setembro de 1823

“— Há muito dia passado, rumando pro sol poente, numa terra virge dos homî, vermelhos ou brancos, lá na terra de Urucu, foi que se assucedeu.

Os olhos vivos de Eliã deixavam transparecer seus pesadelos, suas recordações e seus sonhos. — Ôô-îuká. (Eles matam em Tupi-Guarani) disse minha avózinha, sobre as história que ascutou da sua mãe. Havia quatro menina, que já tinham sumido da aldeia, lá da tribo dos pataxó, que tinham nomis estranhos. Uma chamava Bela, otra Semente, uma era Canto e a otra Esperança. Minhas amigas, os meus laços e minhas irmãs, que moravam comigo na antiga taba, a grandiosa taba dos meus antigos ancestrais. Foi quando os bichos guinchavam nas noites sobre os Ipês e Sussuarunas, quando nas torrentes dos rios escureciam as águas do negro rio. As peste gritavam procurando minhas irmãs. Pajé falou pra ficar quieta, junto das armas que nem os mais valentes levantam, no dia das assombração. No dia da dor, quando os bicho arremeteu, eu perdi minhas irmã. Chorei noite a dentro pelas minhas pequenas irmãs. Decidi cumigo merma: essa noite eu vou atrás desses bicho assassino, que tiraram a luz dos olhos brilhantes. Se eu morrê, que me enterrem no rio, que num mi importa mais. Essa noite eu vou sai pra caçá, que era assunto proibido pras mulher da minha tribo. Num importa, essa noite eu vou sair pra caçá, com a lâmina que brilha, que os valente da minha tribo encontrou na noite em que os céus queimou, lá no igarapé, cravada nas raíz da castanheira. Faca enorme, esquisita, que vez por outra ilumina como fogo de carvão, mesmo cum noite sem estrela. Os valente disseram que é a lança que Tupã jogou na terra. Essa lança que eu vou usá contra a coisa ruim, já que flecha num adianta, já que grito e fogo num espanta as criatura, vou assim mesmo.

Assim Eliã contou a história para as de sua descendência, onde haveriam de nascer outras Eliãs. E assim a cada década, a anciã que representaria a mais idosa do clã reuniria sua parentela para narrar os fatos que deram origem a lenda. Lenda que seria contada desde essa noite perdida nas folhas sobre folhas, das incontáveis folhas do chão da floresta do tempo.

— Num olhei pras costa, num vi que me acercava as árvore, quando se assucedia das trevas me encobrí como coberta, porque só alembrava das minha irmã. Ia chorando, aos pés das aroeira e ipê, desviando dos cipós que caíam sobre as árvores, como teias daquelas aranhas caranguejeiras. — A velha índia com cabelos embranquecidos, pele crespa do tempo, falava com uma voz pausada e firme, para a multidão das crianças ao redor do cajueiro, ao lado da velha cabana, daquela vila de Coari. Os olhos das crianças, sentadas no chão, debruçadas sobre a relva, pisando pés de arbustos de confrei, ou sentadas sobre os galhos dos cajueiros, cintilavam a cada palavra que brotava da boca da anciã. As mães de pele morena, longas cabeleiras negras e lisas, apertavam suas crianças de colo ao peito, enquanto homens avermelhados, com cabelos curtos e negros como o corvo, seguravam as velhas lanças da tribo que já não existia mais. Moradores de Coari, trabalhadores em fazendas, catadores de castanhas, plantadores de guaraná e pescadores de rostos rudes, participantes da massa de gente que se ajuntava naquele dia de declarações. Tucanos curiosos e araras gigantescas se ajeitavam sobre os imensos galhos dos cajueiros, ao lado das crianças, interrompendo vez por outra a palestra com seu chalrear e com seus berros. Firmando as mãos encarquilhadas sobre um tosco bordão a velha Eliã continuou:

— Enxugava com uma das mãos os rios d’água que brotavam dos meus olhos de menina, quando o coisa-ruim berrou do outro lado da floresta. O grito do animal cortava o vento como o fogo, crispando a palha e me fazia tremer como um macaco acuado pela onça. Depois do grito eu sabia, ah! Eu sabia... que viria o pipocar das árvore e o romper dos galho, quando a criatura incansável corresse na minha direção. Eu num tava muito distante do grito e sbia que já tava morta. Num tinha mais como escapá da criatura. E também num importava mais. A macacada desesperada fugia pelos galhos altos dos Tucumanzeiros enquanto uma revoada de tucanos já mostrava que o bicho-ruim tava chegando.

As crianças demonstravam desconforto cada vez que o bicho era mencionado. As de colo se apertavam mais ainda aos seios de suas mães. Os mais idosos seguravam seus chapéis de palha e batiam os pés descompassadamente. Eliã continuou:

— Ouvi o grito da criatura e me tremi toda. O vento soprava por dentro da floresta e o chão tremia com as pancadas das patas do animal. Eu apertei a espada, enrolada na tapuá trançada de fibra de juça que guardava Mouajé, e deixei Mouajé nua, a espada cintilante do extinto Igarapé. Longe ouvi os tronco sendo despedaçado, e longe ouvi as árvore gritando de dor pelas mãos do animal destruidor. Os troncos partia com o som dos ribombá dos trovão, igual quando nas chuva se derrama os raio. Eu tava na clareira, perto do rio negro, perto onde minhas irmãs morreram. Foi quando vi as árvore gigantescas sendo jogadas pro alto enquanto vinha o monstro em minha direção. Quanto mais ele se apruximava, mais árvore caia perto. Inté que caíram as duas últimas que faziam a fronteira da clareira. Os olhos do bicho faiscavam. Minhas mãos tremiam. Meus pés tremiam. Meu coração tremeu. E daí? Eu num ia imbora mesmo. Eu num tinha pra onde me esconder, num tinha pra onde correr. Eu num tinha mais nenhuma irmã. Foi intão que o bicho veio correndo em minha direção. E foi intão que eu corri na direção do coisa-ruim. Eu num só alembro de levanta a Mouajé e escuta um ronco, um trovão, um negócio que parecia um raio batendo ni mim, que me arrepiou os cabelo, quando a coisa me tocou. E inda ouvi o grito da criatura que me estrondou os ouvido. Ai eu só avistei a escuridão. Quando me encontram a clareira inda pegava fogo, enquanto deitada eu no sangue de minhas mãos. Só num queimei porque chovia.

Chovia dimais...”

Terminada a prosa, entoando cantigas ancestrais, a imensa família rumava para barcaças de proa esverdeada, amarradas em cais improvisados, na beira do barrento rio Solimões. No percurso tortuoso que duraria três dias, os barcos seguiriam iluminados por antigos lampiões cheios de óleo de peixe boi, que vistos dos céus de noite seriam como pingos dourados piscando ao longo de um caminho ora negro, ora prateado, destacando-se em densa e úmida escuridão. Dois rios após adentrariam as águas negro-esverdeadas apinhadas de piranhas e botos brancos do antigo Urucu. Então, descendo a grandiosa comitiva, caminhariam léguas pela floresta úmida, pisando a pé os Igarapés, de onde, na época, mui longe, se avistavam cabanas toscas de larga frente, montadas sobre árvores, pertencentes às raras famílias ribeirinhas que viviam da colheita de castanhas. Caminhariam até a imensa e lendária clareira, debaixo dos gritos de papagaios dourados, envoltos pelo véu da noite estrelada, onde depositariam flores aos pés de pequenas pedras brancas, cravadas no chão da lendária clareira, aonde se liam os nomes:

Bella, Sementhi, Cantho e Essperancça

Então desembrulhavam a antiga espada brilhante, envolvida nas fibras de juça, e a balançavam suavemente gerando nuances azuis e violetas, quando de mão em mão dançava a espada, até retornar às mãos da velha Eliã, que a tornava a embrulhar.

E a chorar.

Capítulo Primeiro

"A vida é como um sutiã, por isso, meta os peitos"

11 de agosto de 1999

Dentre as muitas histórias deste livro, não poderia deixar de narrar a fábula do amor entre Nexter e Aninha. Desde as primeiras cartas, dos fantásticos desencontros e por fim o inesquecível desfecho da história. Aninha, Nexter conheceu só por cartazes. Menina propaganda de uma grande empresa de telecomunicações, de olhos azuis e cabelos negros azulados, tês alva e sorriso incomparável. Ninguém sabe ao certo como ele conseguiu o e-mail dela. Os dois hackers de Urucu, o Aluízio ceará e o temido Carlos Borges guardaram silêncio absoluto sobre o assunto em questão. Contam somente que numa dessas viagens para Urucu, no desembarque no aeroporto, os dois que se substituíam na estadia dentro da província petrolífera, num regime de 14 dias internados por 14 de folga em seu estado de origem, se depararam com Nexter sonhando acordado diante de um imenso cartaz de sua musa inspiradora. Depois de conversarem por quase uma hora e continuarem, ainda assim vendo-o naquela mesmíssima pose de deslumbramento, como se o tempo tivesse parado, tiveram a suprema inspiração. Diz a lenda que foi neste momento lúdico, que eles, nossos poderosos hackers, começaram a busca pelo e-mail de Aninha.

Ninguém dormiu naquela noite mágica, quando o tal e-mail apareceu num bilhete escrito no bolso do macacão alaranjado do Nexter. E como não poderia deixar de ser, quando as cópias dos e-mails enamorados foram distribuídas por vários povoados ao norte de Coari, ninguém jamais descobriu como foram copiados. A primeira carta era espetacular:

Oi. Eu sou o teu maior fã. E mesmo sendo estranho que eu, um completo desconhecido, a quem você certamente só ouviria por educação do que por qualquer outro motivo, queria aproveitar este momento eterno, ao menos para mim, essa oportunidade única, pra te dizer que te amo. Que amo esses teus olhos, amo esse teu sorriso e o jeito como teus lábios se movem, quando teus olhos que sempre queimam em mim, sorriem juntamente. Você poderia me questionar, perguntando — Como pode me amar sem me conhecer... Sem saber como sou... Sem saber quem sou? — É porque vejo um pouco de você através de teus olhos, e do teu sorriso. E mesmo que você fosse insuportável, ou geniosa, e mesmo prepotente, ou arrogante, se um terço, somente um terço do que me transmite o teu olhar, essa dignidade oculta, essa vontade de viver imberbe, indizível, se somente um terço de tudo que eu sinto quando te percorrem meus olhos, for verdadeiro, só por isso já vale o fato irrevogável de te amar por todos os meus dias, mesmo porque eu irei sorrir a cada dia que te vir sorrir, inda que numa foto emoldurada, pois isto é algo sobre o qual não tenho controle. Pelo caminho que terei que cursar, te levando em sonhos, te amando aos poucos, não poderia evitá-lo. Não pense que me ufano sobre tua perfeição, e não te enganes que eu não virei a te adorar, a não ser como carinho, não estenderei um altar sobre ti, sobre o qual venha a queimar velas. Você não é minha deusa, jamais será minha dona. Você é minha dádiva, meu encanto e meu amor, mesmo que quisesse não te esqueceria, pois vives nos recantos da minha personalidade. Esse coração, talvez infeliz, te elegeu como musa e se recusa terminantemente a te abdicar. Não irei morrer por você, não me ufano do teu amor, e não me faria diferença a tua indiferença. Porque, por mais ferido que fosse, esse bastardo coração, já fazes parte dos meus dias e das minhas noites, destas que são contadas como o tempo que me foi concedido para viver...”

Não é necessário dizer como as meninas de Urucu suspiravam a cada embarque de Nexter...

E também não seria necessário dizer que quase perdemos, por motivos vingativos tácitos e mórbidos e cruéis, nossa inestimável dupla de Apoio na área de Informática.

Impressionantemente, toda história possui um começo. E por mais assombroso que possa parecer, a nossa história, nossa interessante jornada, se inicia agora...

Dublado nos estudios do Mem Ex Group

Era uma vez um certo grupo de Engenharia que sempre possuía um corpo de técnicos fiscais de obras industriais, à prova de intempéries, bravos, destemidos, homens acima de quaisquer suspeita, que dominavam disciplinas técnicas diversificadas tais como: Instrumentação, Eletricidade, Mecânica, Tubulação, Civil, Física Nuclear, e outras inumeráveis disciplinas, sendo capazes de trabalhar, fosse no pólo norte até ao interior de selvas africanas. E perpertua a Lenda que para todos os outros casos, existia o Exílio.

O ‘mardito’ Exílio

Havia um cerimonial que aplicávamos quando ocorria a convocação de um pobre coitado, digo, alijado, digo, algum infeliz, quer dizer, um dos “agraciados” que trabalharia em algum lugar, usualmente, um pouco além de onde a civilização termina. Escrita com nanquim num pedaço de sépia enrolada que nomeamos: Pergaminho da chamada abrupta.

Ei-la:

Na densa escuridão da noite, durante o período que os trovões levam, antes do próximo relampejar, trepidavam patas ferradas do corcel negro, ferrando as poças da lama ocre no caminho lamacento até o lendário castelo das forças de ocupação. O alvo dos olhos dos animais resplandecia, junto a sua escura crina a cada raio que os iluminava. Montado sobre o negro animal, Morfagnad, o mensageiro das terras distantes, com suas indumentárias escuras e encharcadas, grita para os guardas à frente dos gigantescos portais da antiga fortaleza. As imensas portas são abaixadas, enquanto ele ainda chicoteia o alazão, ao sonido agora ocre, do trope nas pedras lavradas, recobertas de liquens acizentados do pátio castelar.

Da sacada superior, uma sombria figura observa a chegada de Morfagnad, o mensageiro. Deixando sua cansada montaria, Morfagnad caminha, como arrasta-se a si mesmo, até o grande salão de pórfiro e granito, enquanto um sombrio conselheiro vai murmurando algum aviso para aquele que se assenta sobre uma gigantesca cadeira adornada de púrpura e de madeira ricamente trabalhada. Quase um trono. O mensageiro entra solene pelas portas palacianas, subindo até o lugar do grande salão rodeado de colunas de rosacrocita. Ele pára, subitamente, e se ajoelha, enquanto as abas de suas vestimentas molhadas enchem como um vestido o lugar onde se abaixara. Na verdade, usa uma capa. Negra. Aquele que está sentado não se vira para cumprimentá-lo. De costas ainda, levanta uma das mãos com a luva de couro e faz um gesto com a ponta dos dedos, somente abrindo a mão, sob os olhos malévolos e semicerrados do sombrio homem ao seu lado direito. O mensageiro se levanta e caminha, enquanto sua sombra se projeta na cortinada das colunas, através da luz das lamparinas acesas com óleo de baleia Albina. Ao longe se esconde uma menina de olhos encantadores azuis, vestida com uma roupa mesclando azul e branco, com um avental vermelho, uma das dezenas de serviçais do imenso castelo. Seus cabelos negros avermelham-se pelas luzes e matizes das lamparinas cujas chamas tremulam naquele dia de tormenta e tempestade. O ruído de suas botas de couro molhadas sobressaem agora no silencioso salão, reverberando a cada passo sobre o pórfiro impecavelmente polido. Próximo ao homem assentado, ao se achegar, se ajoelha novamente em reverência. Fala então:

— Ó coordenador do castelo. Nossos guerreiros dalém, nas terras distantes, que batalham já a longo tempo, necessitam dos préstimos de um dos servos sob tua alçada. O coordenador das terras distantes me enviou a ti, para que, encontrando mercê diante de ti, dignasses a conceder-nos um dos teus homens para nos socorrer.

Quebrava-se o silêncio sepulcral, através do murmúrio do vento soprando entre as frestas, das pedras nas paredes, soando como fosse um antigo órgão tubular. O olhar do sombrio homem ao lado do coordenador, semicerrou-se ainda mais. Por fim o homem assentado falou:

— Escolhe aquele que queres, e depois to enviarei. Por tempo determinado. Trava então tu, as batalhas que dele dependeres, entretanto, saibas, que este voltará quando minha vontade assim o determinar.

O mensageiro se levanta. Com cortesia agradece, enrola o manto negro sobre o rosto e prepara-se para partir. Desta vez o sombrio homem, até aquele momento calado, com uma voz de ratazana completou o enunciado:

— Lembra-te... Por tempo determinado...

O mensageiro se inclina ligeiramente, dando meia-volta e sumindo na penumbra do castelo. Um relinchar apavorante se ouviu. E depois a chuva. Somente a chuva. Nada mais.”

Esta sombria história localizava-se num rolo, no “Fabuloso pergaminho da chamada abrupta” o qual, simbolicamente, nos era entregue por algum colega (sádico) de trabalho no “dia da chamada”. O “dia da chamada” era o trágico dia em que algum chefe de Obra desesperado iria convocar um técnico qualquer, para trabalhar em algum lugar qualquer, onde os requisitos mínimos necessários fossem capacitação em: ‘Combate a incêndio’, ‘Primeiros Socorros’, ‘Guia básico de como sobreviver a quedas de avião em florestas densas’ e um ‘Atestado de vacinação para tifo, febre amarela, malária, tétano e o que mais ocorresse.’.

Naquele dia na sede do prédio de Engenharia, eu que havia sido emprestado para o setor de Orçamento, digitava uma dessas planilhas gigantescas em Excel, quando recebi o telefonema do meu setor de origem. O dia da ‘chamada’ chegara. Em verdade era o que o pessoal chamava de Fiscal de Campo, um desses sujeitos que carregava uma prancheta na mão percorrendo trechos de plantas industriais, procurando algum tipo de montagem em desacordo com as normas. No meu caso, normas de eletricidade. De “Campo”, nós apelidávamos qualquer Unidade Industrial, Obra ou Instalação. De “Sede” nomeávamos de Escritório. E ali estava eu, na Sede, há seis meses, em virtude do término das obras. Meus olhos doíam de tanto olhar para a tela do computador, ao lado de um colega de nome Helon, Analista de Sistema do setor. Atendi. Era meu chefe.

— Oi Welington, tudo bem? Como estamos? Estou ligando para te dizer que estão precisando de uma pessoa de eletricidade numa obra no Norte.

— Onde? Quanto tempo?

— No máximo por três meses. Começa semana que vem. Você vai substituir um técnico. Tudo bem?

— Onde?

— Pertinho, fica tranqüilo.

— Quem vai estar lá?

— Alguns você já conhece. Lembra do Jayme? Também estarão lá o Aluízio Xavier, fiscal de tubulação, aquele paraibano. Vai estar lá o ‘cientista louco’ Nexter, o japa, Hikano. Na área de Segurança o Alexandre... E o andróide.

— O Boot? Já estão aceitando ‘máquinas’ na fiscalização?

— A carência de mão de obra é muito grande aonde você vai.

— E posso saber para onde estou sendo enviado?

— Olha, não posso dar mais detalhes agora, porque tenho uma reunião. Fica tranqüilo. As passagens de avião eu já mandei para sua casa! Até mais...

O Helon olhou para minha expressão de ‘terror sobrenatural’, misturado com ‘espanto e pasmo’, sorrindo ele abriu uma gaveta, tirando de dentro dela uma caixinha negro-esmeralda. Retirou da pequena caixa ‘o Pergaminho’ e o colocou sobre minhas mãos. E apesar de não ser uma prática consolidada, cantou-me a velha canção:

I'm singing in the rain
Just singin' in the rain
What a glorious feeling
I'm happy again
I'm laughing at clouds
So dark up above
The sun's in my heart
And I'm ready for love
Let the stormy clouds chase
Everyone from the place
Come on with the rain
I've a smile on my face
I walk down the lane
With a happy refrain
Singin', just singin' in the rain
Dancing in the rain 
Ohh ia ohh ia ia
I'am happy again
I'am singing and dancing'in the rain
...
dancing and singin'in the rain

E como chovia naquela floresta, eu viria a descobrir...

Quando eu era um filhote, digo, pequeno, recordo que aconteceu uma grande e tremenda tempestade. De pés descalços e sem camisa, avistei as nuvens escurecendo cada vez mais, vindo de longe e se aproximando, enquanto uma ventania descomunal fazia pequenos rodamoinhos. Logo os céus eram somente escuridão, e a chuva torrencial descia abundante enquanto eu corria para o apartamento onde morava, procurando me abrigar. As crianças desde cedo se encantam com a chuva. Perdi a conta das vezes que permanecia contemplando as gotas de chuva escorrendo na janela, percorrendo o vidro que era preso com massa de vidraceiro em caixilhos de madeira.

O Exílio era logo ali, ali a 620 Km de Manaus, onde o vento não faz a curva, simplesmente porque não consegue passar pelas árvores centenárias, de tão próximas que alcançavam quase cento e vinte metros de altura.

O Exílio era logo ali, às margens do rio Urucu.

E em breve, muito breve eu estaria lá.

Fantásticas memórias do exílio

A língua do pê

A língua do pê

(Hélio Consolaro )

A língua permite algumas brincadeiras, aliás, na sua função poética está também o lúdico. Brincar com as palavras é também compor um poema. Leia abaixo:
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém, posteriormente, pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedir pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo.

- Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir.

Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai.

Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: - Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior.

Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias?

- Papai, - proferiu Pedro Paulo - pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.

Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro!

Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando.

Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partiram pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente, Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos.

Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando...

Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto, pararei.

E você ainda se acha o máximo quando consegue dizer: "O Rato Roeu a Rica" ou "Roupa do Rei de Roma."?



http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=curiosidades/docs/alinguadope

Vozes de animais



Vozes de animais e barulhos ou ruídos de coisas

(Fonte: Dicionário Michaelis)
Abelha - azoinar, sussurrar, zinir, ziziar, zoar, zonzonear, zuir, zunzum, zumbar, zumbir, zumbrar, zunzir, zunzar, zunzilular, zunzunar
Abutre, açor - grasnar
Águia - borbolhar, cachoar, chapinhar, chiar, escachoar, murmurar, rufar, rumorejar, sussurrar, trapejar, crocitar, grasnar, gritar, piar
Andorinha - chilrar, chilrear, gazear, gorjear, grinfar, trinfar, trissar, zinzilular
Andorinhão - crocitar, piar
Anho - balar, mugir
Anhuma - cantar, gritar
Anta - assobiar
Anum - piar
Apito - assobiar, silvar, trilar
Araponga - bigornear, golpear, gritar, martelar, retinir, serrar, soar, tinir
Arapuá - V abelha
Arara - chalrar, grasnar, gritar, palrar, taramelar
Arganaz - chiar, guinchar
Ariranha - regougar
Árvore - farfalhar, murmurar, ramalhar, sussurrar
Asa - ruflar
Asno - V burro
Auroque - berrar
Avestruz - grasnar, roncar, rugir
Azulão - cantar, gorjear, trinar
Bacurau - gemer, piar
Baioneta - tinir
Baitaca - chalrar, chalrear, palrar
Bala - assobiar, esfuziar, sibilar, zumbir, zunir
Baleia - bufar
Bandeira - trepear
Beija-flor - trissar
Beijo - estalar, estalejar
Bem-te-vi - cantar, estridular, assobiar
Besouro - zoar, zumbir, zunir
Bezerro - berrar, mugir
Bife - rechinar
Bisão - berrar
Bode - balar, blalir, berrar, bodejar, gaguejar
Boi - mugir, berrar, bufar, arruar
Bomba - arrebentar, estourar, estrondar, estrondear
Búfalo - bramar, berrar, mugir
Bugio - berrar
Burro - azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, relinchar, zornar, zunar, zurrar
Buzina - fonfonar
Cabra, cabrito - balar, balir, berregar, barregar, berrar, bezoar
Caburé - piar, rir, silvar
Caititu - grunhir, roncar
Calhandra - chilidar, gazear, grinfar, trinfar, trissar, zinzilular
Cambaxira, corruíra, garrincha - chilrear, galrear
Camelo - blaterar
Campainha - soar, tilintar, tocar
Camundongo - chiar, guinchar
Canário - cantar, dobrar, modular, trilar, trinar
Canhão - atroar, estrondear, estrugir, retumbar, ribombar, troar
Cão - acuar, aulir, balsar, cainhar, cuincar, esganiçar, ganir, ganizar, ladrar, latir, maticar, roncar, ronronar, rosnar, uivar, ulular
Capivara - assobiar
Caracará - crocitar, grasnar, grasnir
Carneiro - balar, balir, berrar, berregar
Cavalo - bufar, bufir, nitrir, relinchar, rifar, rinchar
Cegonha - gloterar, grasnar
Chacal - regougar
Champanha - espocar, estourar
Chave - trincar
Cigarra - cantar, chiar, chichiar, ciciar, cigarrear, estridular, estrilar, fretenir, rechiar, rechinar, retinir, zangarrear, zinir, ziziar, zunir
Cisne - arensar
Cobra - assobiar, chocalhar, guizalhar, sibilar, silvar
Codorna - piar, trilar
Coelho - chiar, guinchar
Condor - crocitar
Copo - retinir, tilintar, tinir
Coração - bater, palpitar, pulsar, arquejar, latejar
Cordeiro - berregar, balar, balir
Corneta - tocar, estrugir
Corrupião - cantar, gorjear, trinar
Coruja - chirrear, corujar, crocitar, crujar, piar, rir
Corvo - corvejar, crocitar, grasnar, crasnar
Cotovia - cantar, gorjear
Cozimento - escachoar, acachoar, grugulejar, grugrulhar
Crocodilo - bramir, rugir
Cuco - cucular, cuar
Curiango - gemer
Cutia - gargalhar, bufar
Dedo - estalar, estrincar
Dente - estalar, estalejar, ranger, ringir, roçar
Doninha - chiar, guinchar
Dromedário - blaterar
Égua - V cavalo
Elefante - barrir, bramir
Ema - grasnar, suspirar
Espada - entrechocar, tinir
Espingarda - espocar
Esporas - retinir, tinir
Estorninho - pissitar
Falcão - crocitar, piar, pipiar
Ferreiro - V araponga
Flecha - assobiar, sibilar, silvar, zunir
Fogo - crepitar, estalar
Foguete - chiar, rechiar, esfuziar, espocar, estourar, estrondear, pipocar
Fole - arquejar, ofegar, resfolegar
Folha - farfalhar, marulhar, sussurrar
Fonte - borbulhar, cachoar, cantar, murmurar, murmurinhar, sussurrar, trapejar
Fritura - chiar, rechiar, rechinar
Gafanhoto - chichiar, ziziar
Gaio - gralhar, grasnar
Gaivota - grasnar, pipilar
Galinha d'angola - fraquejar
Galinha - carcarejar, cacarecar, carcarcar
Galo - cantar, clarinar, cocoriar, cocoricar, cucuricar, cucuritar
Gambá - chiar, guinchar, regougar
Ganso - gasnar, gritar
Garça - gazear
Gato - miar, resbunar, resmonear, ronronar, roncar, chorar, choradeira
Gaturamo - gemer
Gavião - guinchar
Gongo - ranger, vibrar, soar
Gralha - crocitar, gralhar, gralhear, grasnar
Graúna - cantar, trinar
Grilo - chirriar, crilar, estridular, estrilar, guizalhar, trilar, tritrilar, tritrinar
Grou - grasnar, grugrulhar, gruir, grulhar
Guará (ave pernalta) - gazear, grasnar
Guará - uivar
Hiena - gargalhar, gargalhear, gargalhadear
Hipopótamo - grunhir
Inambu - piar
Inseto - chiar, chirrear, estridular, sibilar, silvar, zinir, ziziar, zoar, zumbir, zunir, zunitar
Jaburu - gritar
Jacu - grasnar
Jaguar - V onça
Jandaia - V arara
Javali - arruar, cuinchar, cuinhar, grunhir, roncar, rosnar
Jia - coaxar
Jumento - azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, zornar, zurrar
Juriti - arrular, arulhar, soluçar, turturinar
Lagarto - gecar
Lama (quando batida com as mãos, com os pés ou com o corpo) - chapinhar
Leão - bramar, bramir, fremir, rugir, urrar
Lebre - assobiar, guinchar
Leitão - bacorejar, cuinchar, cuinhar
Leopardo - bramar, bramir, fremir, rugir, urrar
Líquido - gluglu, gorgolejar
Lobo - ladrar, uivar, ulular
Locomotiva - apitar, resfolegar, silvar
Lontra - assobiar, chiar, guinchar
Macaco - assobiar, guinchar, cuinchar
Macuco - V inambu
Maitá, maitaca - V baitaca
Mar - bramar, bramir, marulhar, mugir, rebramar, roncar
Marreco - grasnar, grasnir, grassitar
Martelo - malhar
Melro - assobiar, cantar
Metal - tinir
Metralhadora - pipocar, pipoquear, matraquear, matraquejar
Milhafre - crocitar, grasnar
Milheira - tinir
Mocho - chirrear, corujar, crocitar, piar, rir
Morcego - farfalhar, trissar
Mosca - zinir, zoar, zumbir, zunir, zumbar, ziziar, zonzonear, sussurrar, azoinar, zunzum
Motor - roncar, zunir, assobiar, zumbir
Mula - V burro
Mutum - cantar, gemer, piar
Onça - esturrar, miar, rugir, urrar
Onda - bater, bramir, estrondar, murmurar
Ovelha - balar, balir, berrar, berregar
Paca - assobiar
Palmas (das mãos) - estalar, estrepitar, estrugir, soar, vibrar
Pandeiro - rufar
Pantera - miar, rosnar, rugir
Papagaio - charlar, charlear, falar, grazinar, parlar, palrear, taramelar, tartarear
Pardal - chaiar, chilrear, piar, pipilar
Passarinho - apitar, assobiar, cantar, chalrar, chichiar, chalrear, chiar, chilrar, chilrear, chirrear, dobrar, estribilhar, galrar, galrear, garrir, garrular, gazear, gazilar, gazilhar, gorjear, granizar, gritar, modular, palrar, papiar, piar, pipiar, pipilar, pipitar, ralhar, redobrar, regorjear, soar, suspirar, taralhar, tinir, tintinar, tintinir, tintlar, tintilar, trilar, trinar, ulular, vozear
Patativa - cantar, soluçar
Pato - grasnar, grassitar
Pavão - pupilar
Pega - palrar
Peixe - roncar
Pelicano - grasnar, grassitar
Perdigão, perdiz - cacarejar, piar, pipiar
Periquito - chalrar, chalrear, palrar
Pernilongo - cantar, zinir, zuir, zumbir, zunzunar
Peru - gluginejar, gorgolejar, grugrulejar, grugrulhar, grulhar
Pião (brinquedo) - ró-ró, roncar, zunir
Pica-pau - estridular, restridular
Pintarroxo - cantar, gorjear, trinar
Pintassilgo - cantar, dobrar, modular, trilar
Pinto - piar, pipiar, pipilar
Pombo - arrolar, arrular, arrulhar, gemer, rular, rulhar, suspirar, turturilhar, turturinar.
Porco - grunhir, guinchar, roncar
Porta - bater, ranger, chiar, guinchar
Poupa - arrulhar, gemer, rulhar, turturinar
Rã - coaxar, engrolar, gasnir, grasnar, grasnir, malhar, rouquejar
Raposa - regougar, roncar, uivar
Rato - chiar, guinchar
Rinoceronte - bramir, grunhir
Rola - V pombo
Rouxinol - cantar, gorjear, trilar, trinar
Sabiá - cantar, gorjear, modular, trinar
Sagüi - assobiar, guinchar
Sapo - coaxar, gargarejar, grasnar, grasnir, roncar, rouquejar
Seriema - cacarejar, gargalhar
Serpente - V cobra
Tico-tico - cantar, gorjear, trinar
Tigre - bramar, bramir, miar, rugir, urrar
Tordo - trucilar
Toupeira - chiar
Touro - berrar, bufar, mugir, urrar
Tucano - chalrar
Urso - bramar, bramir, rugir
Urubu - V corvo
Vaca - berrar, mugir
Veado - berrar, bramar, rebramar
Vespa - V abelha
Zebra - relinchar, zurrar